sexta-feira, 1 de abril de 2016

Do que está por vir

Poucas coisas me tiram o sono: preocupação com algo realmente sério e de difícil solução, dor e expectativa.
Essa última é uma insônia do bem (se é que se pode afirmar isso!) e eu só senti em duas situações antes de hoje: quando eu era criança, em vésperas de aniversário ou alguma outra data festiva, quando eu certamente ganharia presentes e, quando eu estava esperando a Malu.

Presente: pre.sen.te 
"adj m+f (lat praesente1 Que existe no momento de que se fala; atual. 2 Diz-se da pessoa ou coisa que está num dado momento diante dos olhos. 4 Que está a ponto de se realizar. 3 Brinde, dádiva, mimo, oferenda." (Michaelis)

"Que está a ponto de se realizar" é futuro, não?

Então quando estamos no presente, vivendo o presente e esperando um presente, significa que esse presente vivido e esperado é parte de um futuro próximo, que dependendo do presente que se espera, será um futuro? Uma vida? Um presente no futuro? Ou um eterno presente?

Eu não sei. 

Eu só sei que eu não consigo dormir, esperando o meu presente.

sábado, 16 de janeiro de 2016

Pretérito Perfeito

Sabe o que eu queria?
Que a vida fosse mais leve
Como um sopro de brisa breve
Como o mar em calmaria

Sabe o que eu queria?
Ser o que eu não fui
Ver o que eu não vi
E viver tudo o que vivi

Sabe o que eu queria?
Que o bom fosse pra sempre
Que eu fosse mais valente
Para não sofrer no fim

Sabe o que eu queria?
Que o mundo fosse doce
Como melado ou sorvete
Para comê-lo todo dia
Todo dia um pouco de mundo eu comeria...

Sabe o que eu queria?
Que tudo fosse verdade
Que a paz falasse mais alto
Que o sertão virasse mar

Queria que meus amigos não sofressem
Que meus pais não morressem
E que os bons vivessem mais

Queria que o preto fosse branco
Que o branco fosse preto
Que preto e branco fossem iguais

Queria sair de dia e voltar à noite
Sair à noite e voltar de dia
Mas sempre voltar

Queria calar o meu pranto
Queria soltar o meu canto
Queria viver de amar

Queria não querer tanto
Queria querer o que quero
E ter o que preciso
Para ser e estar


quarta-feira, 16 de dezembro de 2015

Dissonância

Tem dias que toda a ignorância, a arrogância, a impunidade, o preconceito, o descaso, a maldade, o desleixo, o racismo, a desigualdade, a desonestidade, o desrespeito, a intolerância, a hipocrisia, a mentira e a fome do mundo caem sobre os meus ombros, invadem o meu peito e me arrancam o ar, o sorriso e lágrimas.

Mas de todas as minhas certezas duas me acalentam a alma nesses dias difíceis:

Eu posso ser a diferença;

Amanhã é outro dia.


domingo, 23 de agosto de 2015

20 DE AGOSTO


A comédia é sempre o gênero do dia do aniversário. Acontecimentos inusitados e aleatórios, aquela coisinha que sempre dá errado. E aí, como faz? Ri! Ri que é melhor.
Não mais engraçado que o episódio da doação de sangue do ano anterior, mas com o devido valor que o dia reserva.
Era uma linda manhã, o sol brilhava, mas um vento maroto anunciava o frio e a chuva que viriam à noite. Ela estava esperando que o sinal abrisse para então seguir em direção à praia, para a sua caminhada matinal, quando percebeu que era alvo de muitos olhares e ouviu uma voz dizendo: “parabéns!” Não, não era um conhecido. Não era um “parabéns” de aniversário. Era uma daquelas gracinhas que as mulheres costumam receber como um elogio. Foi então que percebeu que mostrava há mais ou menos meio minuto, meia banda de bunda aos transeuntes da Rua do Catete com a Dois de Dezembro. Pensou: “estou de biquíni, ok.” Sinal abriu. Corta!
Caminha, corre, tira foto, alonga, responde mensagem, esconde o celular. Corta!
Voltando pela Dois de Dezembro, toca o celular. “Alô... Obrigada... Obrigada... Desculpe... preciso desligar... o vento... meu vestido... tu...tu...tu...” Corta!
Virando a esquina da sua rua, toca o celular e, naquele microssegundo que ela pensou se atendia, esqueceu porque não atenderia... “Alô, oi... Obrigada! Tá ótimo! Obrigada... Ahaha... Obrigada...”
E foi assim, sem parar, sem pensar, sem vergonha, que achou graça no vento que foi levantando o seu vestido até à porta de casa, enquanto alguém lhe desejava ‘feliz aniversário’ e ela ria de si.

quinta-feira, 30 de abril de 2015

ALGUÉM LUGAR

 
    Um lugar, é só um lugar, até você nele estar
    Tolice é pensar que a sua chegada o fará mudar

    Pessoas mudam e se mudam e se moldam
    Lugares são e estão e permanecerão

    Pessoas sonham e acordam e recordam
    Lugares amanhecem e acontecem e omitem

    Um lugar tem cheiro, tem chuva e tem memória
    Uma pessoa tem olfato, tem lágrima e tem história

    Um lugar ainda será só um lugar quando você dele partir
    Tolice é pensar que voltará a mesma pessoa que existia antes de ir









terça-feira, 21 de abril de 2015

MOVIMENTE

Permanecer inerte até que parece bom
Armazenar energia ou alimentar ilusão?
Desperta culpa, arrependimento, frustração

Entre o ser e o estar
Errar pouco é não tentar
Levantar, criar, transmutar

Crer para ser, viver para ver
Encontro as respostas onde verdadeiramente estão
Na alma, na mente, no coração

Do lado de fora, um passo ligeiro
Do lado de dentro, transformação
Passa depressa! Corre, não para! Pressa de quê?

Gira mundo, roda gigante, vira vento
Dúvida, dádiva ou alento?
Paro, reparo, encaro
Sou o meu acontecimento.

sexta-feira, 10 de abril de 2015

TRANSPLANTE

Precisa-se de olhos
para ver, para crer, para encontrar
Para perceber além do que se vê, além do que se tem, além do óbvio
Para enxergar no escuro, olhar de longe, ver de perto
Arregalados, puxados, negros, vesgos
Que falem, decifrem, revelem
Que transmitam a calma, traduzam o silêncio, reflitam o desejo

Precisa-se de coração
Forte, pulsante, grande, feito o de mãe
Puro, mole, forte, inteiro
Onde caiba alegria, dor, amor, ilusão
Que além de pulsar, vibre ao menor sinal de emoção
Cheio de amor, de verdade, de vontade
De ter, receber, acolher

Precisa-se de alma
Sem cor, sem medo, sem rancor
Alegre, leve, serena, ingênua
Para viver, crescer, sentir
Para voar, evoluir, se permitir
Precisa-se de um ser
Que queira ter tudo isso em si